20.7.17

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivação para algum comportamento, mas poucas vezes chegava a entrar no assunto como personagem principal.

Com algum tempo de prática, é fácil identificar quais são esses assuntos: na primeira menção, todo disfarçada de elemento casual, já se identifica a força de sucção desse buraco negro – que, em geral, a pessoa trata como assunto resolvido.

Felizmente, o inconsciente não deixa assuntos importantes passarem batidos, e nunca se sabe onde se encontrará com um caminho para chegar a eles.



Ana era particularmente dedicada aos seus sonhos.

A cada sessão, traz um pequeno calhamaço de papéis rabiscados, contando das jornadas intensas que fazia todas as noites.

Cada dia uma jornada, cada jornada abrindo uma porta para o passado, mas algo se mantinha entre quase todos os seus sonhos: caminhos perigosos, escuros, e a necessidade de chegar em algum lugar.



Depois de algumas sessões, no meio da interpretação de um sonho, Ana mencionou novamente, como quem não quer nada, o rapaz.

Era hora de atacar.

“Me fala mais sobre ele! Como foi a história de vocês?”, eu disse, também com um quê de quem não quer nada.

“Bem… Nós nos vimos por algum tempo. O sexo era muito bom, mas depois eu entrei em uma crise terrível. Eu quis morrer. Ele tinha namorada, sabe?”

“Isso te incomodava?”

“Muito. Eu estava no motel com ele, um dia, quando me dei conta do que estava fazendo. Eu não era aquela pessoa, eu quis morrer. Cortei todo o contato com ele, mas foi terrível. Fiquei um bom tempo sofrendo. Me sentia culpada de ter feito ele trair a namorada.”

Deixei passar a oportunidade de perguntar sobre a culpa. Ainda não era hora.
“Você ainda pensa nele?”

“Não muito. Mas tem uma coisa estranha… Ele me levava para tomar café, em um café desses mais arrumadinhos, de rico. Eu ficava impressionada, aquele mundo não parecia ser meu, eu ainda na faculdade, sem grana… Até hoje eu procuro por esse café, acredita? Eu sei que fica perto de onde eu moro hoje, mas eu já passei mil vezes pela rua e não encontro. Nunca mais achei onde fica, não é engraçado?”

Ela falou do assunto rapidamente, e eu não quis me prolongar muito.
Quando a ferida dói muito, a gente limpa com toquezinhos delicados em vez de esfregar com bucha.





Algumas sessões depois, Ana chegou ansiosa.

“Você acredita que ele me ligou? Anos sem falar com esse homem, e ele me ligou do nada! Ele perguntou alguma coisa sobre trabalho, mas parecia que era desculpa. Eu aproveitei a situação e pedi para ele me responder algumas coisas.”

“Algumas coisas?”

“Perguntei se ele tinha traído a namorada novamente. Você acredita que sim? E, se eu não tivesse falado pra ele que não tinha interesse, teria traído novamente!”

“Como você se sentiu?”

“Aliviada. Livre. Não fui eu que provoquei a traição. Ele teria feito isso de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Foi como se eu não tivesse mais culpa.”

Ana contou a história com a alegria de quem conquista algo importante. Continuou:
“Ah, e você acredita que eu achei o café essa semana? Estava passando pela rua, tão pertinho de casa, e finalmente encontrei o café novamente, depois de tanto tempo!”

Como o inconsciente é lindo. Só depois de se livrar da culpa de levar um homem para o caminho da traição naquele café, ela pode encontrar o caminho para lá novamente.



Sonhou, dessa vez, com caminhos fechados.

“Eu subia escadas, mas não conseguia passar por elas. Trocava de corredor e isso se repetia, até que cheguei em um lugar alto e bonito, e eu via um pôr do sol lindo. Eu ficava contente.”

“Você sente que chegou num lugar positivo?”, perguntei.

“Sinto. Mas então, eu me virei e encontrava um elevador que...”

O sonho continuava. Sua história ainda não acabava ali.
Ainda assim, ela já havia encontrado um caminho.


(Alguns nomes e situações foram alterados para preservar a identidade do paciente, que autorizou a publicação desse texto.)

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